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"A voz humana tem uma qualidade desarmante (não somos seres individuais, somos um todo)."

VIRGINIA WOOLF, As Ondas, p.50

 
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Livre-arbítrio interessa aos mais novos
Escrito por JF   
Thursday, 12 August 2010

My Brain Made Me Do It de Eliezer Sternberg 

Com apenas 22 anos, Eliezer Sternberg, estudante da Tufts Medical School, publicou os livros "My Brain Made Me Do It" e "Are You a Machine?".

No seu segundo livro, "My Brain Made Me Do It" (Prometheus Books), Eliezer Sternberg, aborda temas da neurociência e da filosofia, defendendo que a responsabilidade moral e o livre-arbítrio não estão em risco devido ao nosso conhecimento cada vez mais profundo acerca do modo como o nosso cérebro funciona. Para o jovem autor, o livre-arbítrio é uma propriedade que emerge de funções mais básicas do cérebro. Sendo uma propriedade emergente, depende da arquitectura do cérebro, mas não se reduz ao funcionamento do cérebro tal como ele é actualmente estudado. Nunca entrevista concedida ao co-editor da Mind Matters, sugere que Tiger Woods não poderia ter justificada a sua má conduta moral no recente escândalo sobre infidelidade conjugal apelando ao facto de não ter controlo sobre o seu livre arbítrio, dado que isso só seria admissível no caso de apresentar uma lesão considerável no lobo frontal, o que não sucede.

Sternberg procura desafiar o clássico argumento de Benjamin Libet contra o livre-arbítrio, mas ao mesmo tempo, considera que a tendência do futuro será um ataque cada vez mais severo a esse conceito, tendo em conta que o progresso da neurociência e da tecnologia associada a esse progresso, como as drugas com efeitos no cérebro, os implantes neuronais, interfaces homem-máquina, etc...

Além disso, o autor do livro defende que o progresso da neurociência implicará uma necessidade de reformulação das nossas concepções morais e do nossos sistema jurídico, considerando que a visão determinística da neurociência se imporá sobre o modo como vemos e avaliamos as decisões morais das pessoas.

Sternberg é um jovem investigador que conseguiu trazer as suas reflexões filósoficas para fora do laboratório, algo que mesmo cientistas mais maduros são incapazes de fazer. Na verdade, nenhuma ciência terá interesse se não for capaz de perceber o impacto que terá na vida real das pessoas, a curto ou a longo prazo e essa capacidade é um mérito que poucos cientistas possuem ou desenvolvem, presos que ficam, por vezes a questões meramente técnicas.

 

Actulizado em ( Thursday, 12 August 2010 )
 
Adeus Saramago
Escrito por JF   
Friday, 18 June 2010

SARAMAGO

Hoje, dia 18 de Junho de 2010, morreu José Saramago, talvez o maior escritor de língua portuguesa de todos os tempos. Ninguém deve duvidar da capacidade criativa de Saramago, das suas maravilhosas narrativas e do sentido filosófico com que escrevia, defendendo ideias e pontos de vista acerca da natureza humana. Assim, ele tinha aquilo que se exige de um escritor: boas histórias, capacidade expressiva e universalidade de pensamento.

Eis as últimas palavras que foram publicadas no seu blog, no próprio dia da sua morte, extraídas de uma entrevista que deu à Revista do Expresso no dia 11 de Outubro de 2008:

«Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.»

Adeus Saramago.

 
Teletransporte: quem sou eu?
Escrito por Julian Baggini   
Thursday, 03 June 2010

Teletransporte

Para Stelios, a única maneira de viajar é o teletransporte. Antes ele levava meses para chegar da Terra a Marte, confinado a uma nave espacial apertada e com um historial de segurança longe de ser perfeito. O TeletransportExpress de Stelios mudou tudo. Agora a viagem leva apenas alguns minutos e, até agora, teve um índice de 100% de segurança. Apesar disso, Stelios está a ser processado por um cliente insatisfeito. Ele alega que a empresa, na verdade, o matou. O argumento do cliente é simples: para funcionar, o teletransporte faz um mapeamento do seu cérebro e do seu corpo célula por célula, depois destrói-as todas, envia a informação para Marte e lá volta a reconstruí-lo. Apesar de a pessoa ter a mesma aparência, pensar e sentir como a pessoa que foi colocada a dormir e enviada através do espaço, o requerente alega que, na verdade, o que aconteceu foi o seu assassinato e sua substituição por um clone.Isso soa absurdo para Stelios. Afinal, ele fez a viagem pelo teletransportador várias vezes, e não se sente morto. Na verdade, como o seu cliente pode acreditar seriamente que foi morto pelo processo quando ele, claramente, tem a capacidade de levar o caso aos tribunais?Mesmo assim, quando Stelios entrou outra vez no teletransportador e se preparava para apertar o botão que iria começar a desmantelá-Io, ele, por um instante, questionou-se se estava prestes a cometer suicídio... 

 

Fonte da ideia: Capítulo 10 de Reasons and Persons, de Derek Parfit (Oxford University Press, 1984)

Autor do texto: Julian Baggini: The Pig that wants to be eaten 

 

Actulizado em ( Thursday, 03 June 2010 )
 
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