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«Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.»
 
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CAIM de Saramago Print E-mail
Escrito por JF   
Wednesday, 20 January 2010

Pobre Caim 

Dando continuidade a uma atitude de confronto com a perspectiva cristã do mundo, que Saramago considera nociva à espécie humana, Caim apresenta-se como um romance reflexão que retoma o problema filosófico tradicional do mal. De acordo com esse problema, qualquer código moral que se apoie em mandamentos divinos tem que enfrentar um dilema difícil de resolver. Se um princípio moral é verdadeiro apenas porque Deus definiu que ele é verdadeiro, então isso significa que Deus poderia ter definido que esse mesmo princípio fosse falso. A sua vontade, que extravasa ou sobrepuja toda a capacidade de compreensão humana, é que estabelece o valor moral das nossas acções. Mas, sendo Deus todo-poderoso, ele poderia definir que matar ou torturar pessoas está certo e os seres humanos teriam que se aceitar os seus mandamentos sem os questionar.

Ora, é precisamente neste terreno movediço da moral cristão que Saramago procura colocar o seu leitor. Atribuindo a Deus o papel de personagem que acompanha o mundo à distância, impondo desafios de fé aos seres humanos e encontrando em Caim o homem que provoca o poder de Deus e, através da sua liberdade, questiona Deus sobre as suas opções morais, Saramago apropria-se da crítica do senso comum sobre os desígnios de Deus. Traçando o percurso do Éden até ao dilúvio, Saramago leva o leitor a sentir indignação perante os crimes cometidos por Deus contra a humanidade, como a destruição de Sodoma ou o episódio de Abraão, por exemplo.“Deus nunca poderia ser mau ou não seria deus, para mau temos o diabo, O que não pode ser bom é um deus que dá ordem a um pai  para que mate e queime na fogueira o seu próprio filho só para provar a sua fé, isso nem o mais maligno dos demónios o mandaria fazer…”, p. 136

Assim, parece-me que o livro em termos de reflexão filosófica é pouco original e não nos apresenta nada de novo. Mas o ponto mais fraco do livro parece-me ser o literário. Para quem gosta das obras de Saramago, este é talvez a maior desilusão. Para quem leu O Memoria do Convento ou o Ensaio sobre a Cegueira, esta é uma peça menor do manancial do Saramago…

Actulizado em ( Wednesday, 20 January 2010 )
 
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