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"Poderá chegar o tempo em que seja possível fazer uma análise ao cérebro e determinar se um réu é culpado por homício premeditado ou não (levando a novos domínios como a «neurojurisprudência» e «neurocriminologia»).

Ramachandran, A Brief Tour of Human Consciousness, p. 110

 
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Uma estranha Ilha Print E-mail
Escrito por Giovanni Papini   
Monday, 25 January 2010

Uma estranha Ilha 

Por Giovanni Papini

Uma ilha do Pacífico, um pouco maior do que uma das ilhas Sandwich, a Sul da Nova Zelândia [é habitada] por algumas centenas de melanésios papus, que há muitos séculos, ali aportaram com as suas barcas.

- A singularidade desta ilha - contava-me Pat Cairness - não está no seu aspecto, que é muito semelhante ao das demais ilhas do Pacífico, nem nos seus habitantes, que conservaram os costumes e as tradições da sua raça. Está nisto: os chefes reconheceram, há muito, que a ilha não pode alimentar mais do que um número determinado de habitantes. Este número é, precisamente, de setecentos e setenta. Grande parte do solo, montanhoso, é estéril, e, no mar, não há muito que pescar. De fora, nada pode chegar, porque ninguém, depois deles, desembarcou na ilha e os sucessores dos primeiros imigrantes esqueceram a arte de construir grandes embarcações. Por essa razão, a assembleia de chefes promulgou, em tempos imemoriais, uma lei estranhíssima: a cada nascimento deve seguir-se uma morte, de modo que o número de habitantes nunca ultrapassasse o de setecentos e setenta.

É uma lei - ao que se me afigura­ única no Mundo e que o conselho dos anciãos, composto de bruxos e guerreiros, observa com toda a severidade. Como em todos os países do Mundo, os nascimentos superam as mortes naturais, motivo por que, todos os anos, dez ou vinte infelizes segregados do Mundo devem ser mortos na tribo. O pavor da fome induziu os oligarcas papus a inventar um processo estatístico muito grosseiro, mas preciso. Uma vez por ano, na Primavera, reúne-se a assembleia e a lista dos nascidos e dos mortos é lida. Se são, por exemplo, vinte os nascidos e oito os mortos, é mister que doze vivos sejam sacrificados, para salvação da comunidade. Ao que me disseram, durante certo tempo deviam morrer os velhos; mas como o conselho dos chefes é constituído, na sua maioria, por anciãos, estes arranjaram as coisas, lançando mão de não sei que astúcias, de maneira que o problema de dizimar a tribo fosse confiado à sorte. Cada habitante possui uma tabuinha, onde está inscrito, por meio de um desenho ou de um hieróglifo, o seu nome. Chegado o dia terrível, esses bilhetes de identidade são reunidos no casco de uma barca enterrada diante da tenda do conselho e cuidadosamente revolvidos, com um remo, pelo feiticeiro mais velho. A seguir, solta-se um cão, ensinado para tal fim, que se mete na barca, aferra com os dentes uma das tabuinhas, entrega-a ao bruxo e repete a operação quantas vezes forem necessárias. Aos designados, concedem-se-lhes três dias para se despedirem da família e para se suprimirem da maneira que lhes seja mais agradável. Se, ao fim de três dias, algum não tiver tido coragem para se suicidar, é capturado por quatro homens, escolhidos entre os mais robustos, fechado num saco de couro com algumas pedras e arremessado ao mar. Contada deste modo, a coisa parece simples e, de certo modo, até lógica. É, porém, necessário viver ali, como eu fiz durante algum tempo, para ter uma ideia de como é espantosa essa lei e das consequências trágicas e grotescas que acarreta. Antes de mais nada, a mulher que fica grávida encerra-se na sua tenda e não se atreve mais a apresentar-se diante de ninguém. É uma inimiga a quem todos odiariam. Cada criança prestes a nascer é uma ameaça para os que já nasceram, um perigo público. E, contudo, o pai e a mãe estão tranquilos, embora a sorte possa designar um deles ­como já ocorreu - para desaparecer a fim de dar lugar ao filhinho. De onde se conclui que as mulheres estéreis são as mais respeitadas de todas e que os homens só em último caso se decidem ao matrimónio. Além disso, o homicídio está muito difundido na ilha. Os assassinos propõem-se, também, nivelar o número dos nascimentos e subtrair-se, ao menos por certo tempo, às terríveis surpresas da sorte. Nas minhas viagens, nunca vi coisa tão lúgubre como essa assembleia em que se deve proceder à designação dos sacrificados ao espectro da carência. Assisti a uma dessas reuniões, e, embora esteja muito longe de ser um sentimental, deixou-me triste impressão. Dias antes, há quem tente esconder-se nas grutas da ilha, com a esperança de fugir ao perigo. Mas a ilha é pequena e a vigilância é uma coisa que interessa a todos, pois as ausências aumentam o perigo dos presentes. Alguns são arrastados à força para a reunião e vi, ali, como se debatiam furiosamente, para não entregarem a tabuinha com o seu nome. Daquela vez, os excedentes eram apenas nove e pude verificar que nenhum deles recebia com resignação a sentença da sorte. Uma mulher jovem agarrava-se desesperadamente aos joelhos do chefe, implorando piedade. Tinha, ao que parece, um filho ainda muito pequeno e suplicava, aos soluços, que lhe permitissem viver mais um ano, para não o deixar s6. Um homem, já velho, declarou que estava gravemente enfermo e que em breve livraria a tribo do peso da sua existência, mas que o deixassem morrer de morte natural. Um rapaz clamava em altas vozes que o dispensassem da morte imediata, não por ele, dizia, mas porque era o único arrimo de sua velha mãe e de três irmãozinhos que não estavam ainda em idade de trabalhar. Dois pais soltavam gritos desesperados, por que entre os designados pela sorte se encontrava o mais novo e mais bonito dos seus filhos. Urna jovem implorava que esperassem ao menos que se casasse; devia casar dentro em poucos dias e não queria morrer sem haver cumprido a promessa feita solenemente ao noivo. Um velhinho do conselho procurava salvar-se, declarando que só ele conhecia certos segredos necessários à vida da tribo e que, se o matassem, morreria sem os revelar a ninguém, por vingança. Durante três dias, só se ouviram, na ilha, gemidos e lamentações. Mas a lei é inexorável e não admite prorrogações nem dispensas. Só num caso um dos designados pode ser salvo: quando outro concorda em morrer em seu lugar. Mas, ao que me disseram, essa hipótese quase nunca se verifica. Ao terceiro dia, sete condenados já se tinham matado, no meio dos gritos dos parentes e dos amigos, e ao quarto dia foram lançados dois sacos ao mar, na presença de toda a população taciturna. Mas ocorreu, então, que os que haviam escapado começaram a tran­quilizar-se; os rostos eram mais serenos: um ano de vida segura estava na sua frente. Pat Cairness contou-me muitas outras histórias, mas esta foi a que, pela sua singularidade, mais me impressionou. GIOVANNI PAPINI, Gog, pp.30-33

 

 
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