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Os bancos e o capital As crises por vezes são geradoras de oportunidades, diz-se. No entanto, quem o diz, costuma referir-se a oportunidades para alguns aumentarem os seus lucros ou criarem novas oportunidades de negócio em situações de catástrofe, guerra ou desorientação. A crise que actualmente estamos a viver, trouxe, contudo, oportunidades aos próprios governos para, embora a ideia pareça estranha, legitimar a sua actuação sobre grupos dominantes nas sociedades, nomeadamente bancos, seguradoras e instituições de investimento e gestão do lucro. E a ideia é estranha apenas no sentido em que tradicionalmente os estados representavam o supremo poder instituído na vida humana, obviamente, para além do poder divino e sobrenatural, não tendo que prestar contas a pequenas minorias poderosas. Acontece, no entanto, que os estados se tornaram de tal modo anémicos e frágeis (o que não significa pequenos) que os seus principais agentes se tornaram ou pessoas incapazes de ter uma perspectiva de poder e autoridade, eles próprios personagens minúsculas e sem volume, como aqueles personagens mal estruturados e peliculares dos romances de um iniciado na literatura, ou simples insufláveis manipuláveis e atados a outras forças que os ultrapassavam. O sintoma dessa doença é o facto de praticamente hoje não termos chefes de estados capazes de tomar decisões difíceis e que vão embalando as massas com pequenas comédias ou divertimentos fúteis que conduzem ao adormecimento e ao progressivo desinteresse pela coisa pública. A oportunidade está, pois lançada, para se avançar num novo sentido, revitalizando o estado, fazendo regressar ao seu sentido originário, insuflando-lhe rectidão de princípios e afastando de uma situação de acrasia dormente, apesar das ameaças perturbadoras e descaradas, de um ponto de vista moral, dos grandes mecanismos de poder financeiro, pois como refere o professor de economia Jeffrey Sachs, da Columbia University em Nova Iorque, Wall Street teve o ano mais lucrativo de sua história. Fez lucros de 55 milhares de milhões de dólares, a meio da maior crise desde a Grande Depressão, graças aos resgates dos contribuintes e ao facto dos bancos usufruírem da política de juros zero, o que permite que eles se riam com os bolsos cheios do nosso dinheiro. Jeffrey defende, por isso, o imposto do Robin dos Bosques (Robin Hood tax). Talvez estas ideias possam ser perseguidas pelos nossos políticos e isso contribua, ao mesmo tempo, para que as pessoas confiem de novo na autoridade do estado. Como é fácil de compreender, a autoridade de um estado não resulta da quantidade de polícias ou armamento nuclear que possui, nem da capacidade de afrontamento violento ou da sua agressividade económica, mas antes de um carácter moral e humano exemplar, levantando com dignidade a bandeira da justiça e da distribuição equitativa dos bens e da felicidade dos seus cidadãos. Seria, por isso, oportuno que se desmantelassem todas as ignóbeis e plásticas agências de rating, paraísos fiscais e entidades similares que fazem mais mal ao mundo do que bem, bem como a jogatina financeira descontrolada a funcionar à margem da lei e sem qualquer controlo por parte do cidadão comum, e se construa um índice de felicidade interna dos países. Obama, por exemplo, deu alguns sinais positivos nesse sentido ao assumir uma nova atitude face às armas nucleares ou ao impulsionar a ideia de que é necessário regular o sistema bancário e financeiro internacional. Ideia que parece colher frutos junto da maioria dos países do G20 e que reunirá no Canadá brevemente. Esperemos que estas oportunidades sejam verdadeiras aproveitadas e que no fim não fique tudo como estava, como auguram os mais pessimistas, dada a dificuldade de, num mundo global, aplicar as mesmas regras a todo o planeta. Consultado: http://www.guardian.co.uk |